Shakespeare aos olhos de Delacroix

Shakespeare está no grupo dos cinco ou seis escritores que são suficientes para alimentar o pensamento“, escreveu Delacroix em seu diário, pouco antes de morrer. “Esses gênios são como mães que têm, se pode-se dizer, dado à luz a todos os outros”. Como numa espécie de balanço intelectual, Delacroix exprimia uma ultima consideração sobre um autor cujos temas o haviam envolvido e acompanhado por toda a vida.

Acredita-se que data de 1825 a primeira obra do pintor com um tema shakespeariano: Hamlet vê o Fantasma do Pai (Muzeum Uniwersytetu Jagellonskiego, em Cracóvia, Polônia) , feita na sequência da estadia na Inglaterra. Delacroix foi capaz de entender as diversas representações teatrais que restituíam a complexidade dos textos do escritor, incompreendido na França por causa das traduções simplificadas, e aguadas do poeta Jean-François Ducis, que surgiram no fim do século 18. Isso se devia em grande parte à amizade, desde 1819, com o pintor Raymond Soulier, que, depois de viver na Inglaterra, apresentou a Delacroix a cultura e a língua anglo-saxônica.

Entre os temas do dramaturgo inglês, Hamlet é aquele que exerceu maior fascínio sobre a imaginação de Delacroix. É bem verdade que o interesse francês nessa tragédia de Shakespeare ganhou um grande impulso graças à tradução publicada por Alexandre Dumas, pai, e representada em 1846 e 1847. O conhecimento aprofundado do texto e a compreensão da trama de paixões contrastantes, profundamente humanas, levaram Delacroix a investigar as diversas passagens de Hamlet numa série de 13 litografias, produzidas entre 1834 e 1843, sobre os quais realizou algumas pinturas.

Entre elas, está A Morte de Ofélia, cena que, dada  a ambientação fluvial, era inadequada à representação teatral, e da qual Delacroix executou três versões. A que se vê aqui é a segunda, que foi precedida por uma representação pouco definida de 1838 e seguida da versão de 1853 (Museu do Louvre), a mais densa e escura delas. Com um acentuado efeito psicológico, Delacroix representou a heroína, de corpo cândido e puro, que, entre a loucura pela recusa de Hamlet e pela morte de seu pai, Polônio, segue seu trágico destino. Antes de ser engolida pelas águas, ela lança o ultimo olhar doloroso ao público.

A famosa cena do V Ato, Hamlet e Horácio no Cemitério, também foi objeto de várias versões à óleo de Delacroix. A primeira data de 1835 e acabou rejeitada no Salão de 1836, provocando uma reação antiacadêmica a favor da corrente romântica. A segunda, representada aqui, é de 1839 e foi exposta no Salão do mesmo ano, sendo bem recebida pelo publico e pela crítica. Uma terceira foi pintada à óleo sobre papel em 1844 e a ultima data de 1959 (Museu do Louvre). Delacroix já havia trabalhado com o tema numa litografia de 1828, Hamlet Contempla o Crânio de Yorick (Biblioteca Nacional em Paris) e retornou na série de 1843.

O Hamlet de 1839, mais tarde comprado pelo duque de Orleans, foi particularmente apreciado pela expressão melancólica de seu rosto adolescente. Ele observa, absorto, o coveiro, que lhe mostra o crânio de Yorick – o bufão da corte  que havia lhe carregado nos ombros – “um tipo de inteligência incansável e de uma rara vivacidade de fantasia”, e que agora lhe provocava perguntas: “Onde estão agora as tuas zombarias? Suas cambalhotas? As suas canções? A sua alegria que levantava uma maré de risos? Não sobrou uma pelo menos para rir da tua própria careta?”

Eugène Delacroix, pintor, é considerado o mais importante representante do romantismo francês – Saint-Maurice, 26 de abril de 1798 – Paris, 13 de agosto de 1863

Fonte: Abril Coleções – Grandes Mestres – Delacroix – 2007

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