Memória na criação

Memória

“Pela explosão de uma imagem, o passado longínquo ressoa em ecos”

                                                                                Bachelard

“Querer o esquecimento é a maneira mais aguda de se recordar”

                                                                                                                      Bachelard

Memória na criação

Para os gregos, a personificação da memória é Mnemósina, que se refere ao verbo “lembrar-se de”. Da união de Mnemósina com Zeus, nasceram as nove Musas. Após a derrota dos Titãs, os deuses pediram a Zeus que criasse divindades para cantar a vitória dos olímpicos. As Musas são as cantoras divinas, cujos cantos e hinos alegram o coração de Zeus e de todos os imortais, já que sua função era comandar ao pensamento sob todas as formas:

Calíope: poesia épica

Clio: história

Polímnia: retórica

Euterpe: música

Terpsícore: dança

Érato: lírica coral

Melpômene: tragédia

Talia: comédia

Urânia: astronomia

Musa em grego, talvez derive do verbo men-dh, que significa “fixar o espírito sobre uma idéia, uma arte” e, neste caso, o vocábulo estaria relacionado com o verbo aprender.

Esse aprendizado da memória ocorre através do cérebro, o centro de comando do corpo humano, que é formado por aproximadamente 100 bilhões de células nervosas. Toda informação que é recebida e levada pelo corpo, é feita através dos neurônios, conhecidos como mensageiros do cérebro. O cérebro é formado por diferentes estruturas e cada uma possui diferentes funções.

O cerebelo corresponde ao movimento, ao equilíbrio e a postura. O tronco encefálico cuida da respiração, do ritmo dos batimentos cardíacos e da pressão arterial.

O hipotálamo é responsável pela temperatura corporal, pelas emoções, pela sensação de fome e sede e pelos ritmos biológicos.

O mesencéfalo cuida da visão, da audição, do movimento de olhos e corpo.

O córtex cerebral é responsável pelo pensamento, pelo movimento voluntário, pela linguagem, pelo julgamento e percepção.

O hipocampo rege o aprendizado e a memória.

O conjunto de nossas memórias, adquiridas através das nossas experiências, determinará a nossa visão de mundo ou uma consciência em relação ao nosso jeito de ser (personalidade).

Usarei o termo consciência, como um estado da mente, que nos proporciona o conhecimento tão necessário para o aprimoramento da criação artística. Através das imagens evocadas pela nossa memória, geramos pensamentos que afetam a realidade, e transformam a nossa vida.

O Dhammapada (Livro do verso religioso) diz que “tudo o que somos é o resultado do que temos pensado, funda-se nos nossos pensamentos, é constituído de nossos pensamentos”. É o momento da ação da mente que define a forma de uma vida individual. No hinduísmo e em certas escolas do budismo, a realidade é concebida como um princípio da consciência, quer se chame Atman, quer se chame Ego, quer se chame Mente.

Portanto, exercitar plenamente nossa mente através das sensações e imagens retidas pela memória, é conhecer nossa natureza. O criador deve buscar o conhecimento dessa natureza e, assim, a chave para a centralidade e harmonia do universo. Essa natureza não deve ser buscada longe, mas em nós mesmos. Está dentro da nossa natureza.

Quando falo para um ator que o universo está contido nele e ele no universo, estou tentando fazê-lo compreender que nossa natureza é realizar as virtudes a ela intrínsecas. Não existe a manifestação artística sem esse conhecimento, por mais inconsciente que seja o criador. Assim, para o filósofo chinês Mêncio:

“Todas as coisas já estão completas no eu. Não há maior delícia do que voltar ao eu com sinceridade. Porque a sinceridade é o caminho do céu, ao passo que pensar em como ser sincero é o caminho do homem.”

E se dizemos que as coisas existem como a Terra, as cores, o céu, as estrelas, os objetos, etc., é devido à consciência que temos deles. Para a escola da mente Neoconfuncionista, “o poder controlador do corpo está na mente. A mente dá origem à idéia e a natureza da idéia é o conhecimento.”

Sendo o universo uma rede de inter-relação, de modo que nada pode ser reduzido a um ponto no espaço ou a um instante no tempo, tudo envolve tudo, a psique ou a mente acaba sendo um veículo de transformação.

Resgatar as imagens internas de tudo que você viveu requer uma sinceridade muito grande, o artista não deve enganar a si próprio e fingir que se desnuda, deve fazer um exercício de atenção constante como se fosse o vigilante da última hora. É muito fácil dispersar do objetivo. O passo mais importante é não perder de vista o homem que, através dos seus instintos, se revela e é revelado.

No livro “O Tempo, esse Grande Escultor, Margueritte Yourcenar falando de Marcel Proust diz: “Ele, com sua habitual acuidade, havia notado que, quase todas as virtudes, mesmo a bondade são, antes de tudo, energia. Devemos buscar através do conhecimento, tentativas de controlar essas energias que existem em nós.” J. G. Bennett, aluno de Gurdjieff, em seu livro “O homem interior” nos fala de doze categorias diferentes de energias. Esse sistema de divisão fazia parte de uma antiga tradição originária da Ásia, e se aplica em muitos ensinamentos, como ele mesmo nos diz: no Budismo, Sufismo, Cabala e até no Cristianismo, como por exemplo, na Hierarquia Celestial de Dionísio. Não vou descrever aqui, com detalhes, as 12 categorias energéticas, pois me interessa chamar atenção de uma forma simples para as energias cósmicas que ele subdivide em duas categorias: Energias do divino (Transcendente e Intuitiva) e Energias da Visão (Consciente e Criadora), me deterei um pouco nas energias Consciente e Criadora. Segundo o próprio Bennett, a energia consciente:

“Nos leva a aprender como reconhecer as percepções e ações de ordem superior e nos exercitar no modo de “lutar contra nós mesmos” é na provocação de uma luta entre o sim e o não, pela qual se prepara o terreno para semear as sementes conscientes. Um dos efeitos surpreendentes da consciência em nós, é aquele tipo de experiência em que temos consciência de que, ao olharmos para uma coisa, estamos sendo vistos.”

E a seguir descreve a energia criadora como aquela que:

“Nos dá liberdade e nos permite que criemos a nós mesmos, é a energia mais elevada que pode atuar no homem. Talvez, a diferença final entre o homem e qualquer animal seja que o homem é dotado da possibilidade de ser um instrumento consciente da criatividade.”

Esse homem, dotado dessa consciência criativa, deve usar a mente no tempo e no espaço, fazendo-a existir em unidade com o mundo que ela observa. Através do mundo de imagens da memória, no meu caso por exemplo, me vem sempre a mente visões poderosas de espetáculos teatrais que assisti, onde na maioria das vezes não me lembro do todo, mas de alguns fragmentos, que encontraram eco dentro do meu ser, onde ele as preencheu de sentido e vida.

Quando isso aconteceu, senti que olhei e fui observado por algo divino, e mais do que isso, que transformei minha percepção e criei um espaço interno para esse sopro da criatividade na minha consciência. Sempre digo aos atores, que se eles não deixarem dentro de si, através da criação, o espaço do espectador se ver e se encaixar, não haverá troca, não haverá inter-relação completa. Esse espaço falta quando o criador mergulha numa emoção tão intensa, que não permite, através de uma alienação e prazer pessoal, o espaço do outro, o espaço da consciência compartilhada.

Sem esse espaço não há inter-relação (jogo), elemento necessário para a troca, ou seja, vencer o isolamento do seu espírito e buscar contato com o universo. A idéia é que só há jogo se você compartilhar.

É esse o caminho de mão dupla, de ir e vir que fará surgir o fio que une as sensações e memórias de quem cria com as sensações e memórias de quem assiste. No momento em que essa relação se estabelece os dois se equilibram, tornando-se um só.

É da verdade do nosso interior, que nos tornamos semelhantes.

Por que tantas vezes, ouvindo grandes músicos da platéia perdemos a fronteira e nos fundimos com a sua criação através da música, ou grandes bailarinos quando estão dançando no palco, muitas vezes alcançam um estado no qual não há fronteira entre ele e a dança e nossa imaginação; ou um grande ator, que com um simples olhar, nos faz ir a lugares jamais vistos, ou a força de uma tela, que de tão intensa nos absorve para um outro estado de consciência, nos levando a ter uma experiência sagrada.

No livro “O Jogo Cósmico”, Stanislav Grof, noz diz que:

“O teatro Cósmico oferece muitas oportunidades de experiências que possibilitam sair temporariamente do papel que estamos desempenhando no enredo universal, reconhecer a natureza ilusória da realidade cotidiana, e descobrir a possibilidade de reunião com a fonte.” Em vez de serem distorções de percepção correta do mundo material ocasionados por um processo patológico no cérebro, estas experiências oferecem insights profundos, quanto à natureza da realidade.  Elas revelam a existência de fenômenos que representam estágios intermediários no processo da criação entre a consciência indiferenciada da Mente Universal, e a experiência especificamente humana do mundo material. Por envolverem a transcendência das fronteiras individuais e expandirem a percepção da própria identidade, elas servem como marcos importantes na jornada do “despertar espiritual”.

Sempre vi a arte como um despertar da consciência através da percepção, um elo de ligação entre os deuses e os homens. Como diretor teatral, essa é a minha imagem poética do meu ofício. Quando comecei a dirigir, influenciado pelo meu mestre Antunes Filho, que muito me ensinou, senti um dia, que devia deixá-lo e trilhar a minha própria estrada. Foi natural que, no momento de transição entre a despedida dele e a busca do meu caminho, eu o copiasse. Era um jeito de mantê-lo vivo e também de manter contato com as minhas origens. Mas tive que buscar também a  minha própria identidade, tive que “matar” o meu mestre e descobrir o meu jeito de pensar teatro, de ver o mundo.

Isso implicou numa pratica constante da mente e com sensibilidade para que junto com meus cúmplices do nosso percurso criativo ascendermos a estados elevados de consciência universal, lidando com as energias refinadas e sutis do espírito humano, elevando a qualidade das relações e melhorando o nosso potencial humano de solidariedade, compaixão e paz. Estamos aqui para sermos poetas e criadores, para impregnarmos esse espaço com idéias e pensamentos. Para isso devemos buscar o conhecimento sem qualquer interferência de nossas limitações, falhas e preconceitos. O teatro é um processo infinito de vida. Como artista, cresci muito mais nas coisas que não deram certo do que nas que deram certo,  e tudo na vida tem seu tempo de maturação. Num mundo onde o resultado é muito mais valorizado que o processo, esquecemos do prazer de procurar. O que interessa não é a saída e nem a chegada, mas o que existe entre esses dois pontos: o nascimento e a morte. Quem não consegue perceber esse movimento, cria uma falsa ilusão de si mesmo, se alienando. Segundo o mestre Constantin Stanislavisky:

O ator se exibe todos os dias perante uma platéia de mil espectadores, de tantas e tantas horas a tantas e tantas horas. Está cercado pelos adornos magníficos da produção, valorizado pela eficaz moldura do cenário pintado, frequentemente trajando roupas opulentas e belas. Diz as palavras sublimes dos gênios, faz gestos pitorescos, movimentos graciosos, produz impressões de surpreendente beleza, que, muitas delas, são obtidas por meio da arte. Estando sempre sob o olhar do público, exibindo sua melhor aparência, quer o ator, quer a atriz, ovacionado, recebendo louvores extravagantes, lendo críticas entusiasmadas – todas estas coisas e muitas outras da mesma ordem constituem tentações incalculáveis. Estas tentações criam no ator o sentido da voracidade por uma constante e ininterrupta excitação da sua vaidade pessoal. Mas se ele viver apenas desses estímulos e de outros do mesmo gênero, estará destinado a rebaixar-se e tornar-se banal. Uma pessoa séria não pode se interessar muito tempo por esse tipo de vida, mas as pessoas superficiais ficam fascinadas, degradam-se e são destituídas por ele. É por isto que no mundo do teatro temos de aprender a controlar-nos muito bem. Temos de viver sob rígida disciplina. Se mantivermos o teatro livre de todos os males, proporcionaremos, por isso mesmo, ao nosso próprio trabalho, condições favoráveis. Recordem-se deste conselho prático: nunca entrem no teatro com a lama nos pés. Deixem lá fora sua poeira e imundície.”

 

Sérgio Ferrara 

Diretor de Teatro, Curador Artístico do Projeto Ademar Guerra, Diretor de Montagem da Escola de Atores Wolf Maya, foi Diretor convidado da EAD (Escola de Arte Dramática) USP, Professor do TUCA/Teatro da Universidade Católica. Dirigiu espetáculos com Paulo Autran, Raul Cortez, Caco Ciocler,Luís Damasceno, montou Tarsila de Maria Adelaide Amaral com Esther Goês e Eliane Giardini, dirigiu Mãe Coragem e seus Filhos de Brecht com Maria Alice Vergueiro, recebeu o Premio APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) de melhor diretor no ano 2000 pela peça Pobre Super-Homem de Brad Fraser. Viajou pela África dando aulas de teatro em todos os países africanos de Língua portuguesa e foi até o Timor-Leste. Foi convidado para dirigir um texto do Núcleo de Dramaturgia do Sesi (Pororoca de Zen Salles) coordenado pela Marici Salomão onde também montou o Casamento Suspeitoso de Ariano Suassuna no Teatro Sesi Paulista e atualmente está em cartaz com a direção da peça Genet O Poeta Ladrão de Zen Salles no Sesc Consolação em São Paulo.

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