A afirmação plena do desejo na afirmação das potências do corpo

Por Silvana Abreu

Onde está nosso desejo hoje? Até que ponto ele está de acordo com o que estamos realizando neste momento? Fazemos o que queremos? Queremos o que fazemos? Nosso corpo está impregnado de um fluxo de expressão livre que projeta prazer e entusiasmo em nossas ações?

O fato é que vivemos dentro de um sistema que não estimula a poética expressiva dos nossos corpos. E vivemos isso desde a primeira escola, com seus rituais padronizados de espaço e tempo, que acabam inibindo as expressões criativas, desestimulando-as ou taxando-as como inconvenientes. Fico pensando até que ponto a escola serve para formatar o aluno dentro de uma contenção física que vai muito além da boa convivência coletiva e extrapola numa formatação muito limitada de corpo e de pensamento. Todo mundo em fila. Sentados. De preferência calados. Padronizados. Tempos iguais. Espaços iguais. Respostas certas, iguais. Hierarquia forte. Quase nenhum estímulo à dança, às sensações físicas, à alegria, ao prazer da expressão global corpo/pensamento e suas potencialidades criativas inusitadas. Tudo isso é muito bom para formar seres obedientes, que aceitam facilmente rotinas padronizadas, ótimos para linhas de montagens produtivas, o tal mercado de trabalho, seres eficientes que esqueceram do seu corpo e já não sabem/sentem mais o fluxo do desejo que é o único caminho para uma atividade realmente estimulante e realizadora da potência de cada um.

Estamos metidos dentro de um sistema em que o corpo está totalmente submetido a gestos pré-programados, ligados a modelos, obedientes e mansos. Deixamos, sem perceber, que nosso corpo se encaixe numa estrutura fixa e muito restrita, que apequena nossa expressão e nosso desejo. E cada vez mais queremos menos, nos contentamos com menos, agimos menos, ficamos menores em força e energia. Aceitamos nosso lugar na engrenagem do mercado. Desligamos nossas emoções, que não servem a horários demarcados e planos de produtividade. Aceitamos nosso desejo como algo além do possível, do reino do impossível, longínquo e inalcançável. Os limites são os limites da conta bancária, da sobrevivência, do emprego a qualquer custo. Acima de tudo, precisamos sobreviver, depois, se der tempo, vamos satisfazer o que restou da vida. Mas aí já nem lembramos mais o que realmente, visceralmente queríamos antes de tudo começar. Aceitamos e nos contentamos em sofrer cinco dias por semana para passar outros dois tentando resgatar as migalhas do desejo por entre um corpo cansado e entregue ao desânimo. Então ligamos a TV e desistimos da vida, da intensidade, do vigor, da alegria. Daí para o psiquiatra é um pulo.

Mas a vida ainda flui e atravessa nossos corpos. Temos espaços extremamente amplos em nós para a dança poética das nossas intensidades. Elas não seguem rotas pré-determinadas e não se submetem a controle de projetos. Elas querem. Elas querem muito, e estão sempre em movimento de expansão, de projeção para o exterior, para a ampliação dos limites e para a criação de novos mundos. A afirmação das potências do nosso corpo leva-nos a respostas inusitadas e nunca a respostas padrões. O impossível não está tão perto. O corpo pode em nível muito mais intenso do que nos acostumamos a crer, amansados que fomos. Temos em nós monstros, demônios, poetas, loucos, aventureiros, infinitos mundos, e todos eles merecem expressão poética, como uma dança dos afetos em dinâmica sempre mutante, nunca regulada de fora.

E ligada a esse fluxo energético sempre está a alegria, o prazer e o entusiasmo. Eles são o termômetro e o sinal de que o corpo está na rota da sua expressão mais genuína. E essa rota é única para cada corpo. Não há como relacionar parâmetros. Cada corpo cria sua própria técnica de expressão e se lança nela. Ou assumimos nossa alegria sem pudor, acendemos um brilho no olhar com nossas palavras e gestos, ou aceitamos o desânimo, a apatia, a tristeza e a depressão.

Assumir a intensidade do desejo e do corpo é assumir nosso lugar no mundo. É fazer questão de ocupar todo o espaço que nos é de direito, sem abrir mão, sem recuar para ceder espaço ao outro, porque simplesmente não é preciso, o outro também tem amplo espaço que é seu e é irrevogável. Isso implica numa carga de afirmação que envolve também a expressão da agressividade. A vida em expansão tem vetores de agressividade que quebram barreiras e abrem canais para novos fluxos. Conter a agressividade gera sedimentação de violência. Agir com firmeza, agressividade e alegria gera o crescimento generalizado do corpo e do pensamento, estimulando o mesmo nos outros corpos, em relações fortificadas. Isso é vida e é criação.

No teatro, o ator precisa ampliar o alcance do seu corpo para ser visto e ouvido. Chamamos isso de “corpo dilatado”, ou corpo extracotidiano. Tudo no corpo precisa estar desperto e ativado em sua energia máxima. Essa experiência pode ajudar a entender que o espaço que normalmente ocupamos no mundo é menor do que o espaço que realmente é nosso e que podemos e devemos ocupar, sob pena de deixá-lo vazio ou pior, ocupado por um jogo de poder perverso que utiliza a nossa energia vital contra nós mesmos e com o nosso consentimento. Entregamos nossa alegria e prazer em nome da tranqüilidade e da segurança. Porém a segurança não existe, é mera ilusão, espelhinho vendido a nós em troca da nossa vitalidade mais vicejante, a qual já não acreditamos mais ter, esquecemos completamente como se fosse um sonho ingênuo de criança.

 

* Este artigo nos foi gentilmente enviado pela Silvana em 2012, foi escrito no ano de 2005 e escolhido por ela para estar na nossa revista.

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